Eu me lembro de uma vez
estranho isso
Eu no corredor sendo
eu
Com minha bermuda de florzinha
eu gostava dela
E meu cobertor que carregava pela casa
aí eu vi
Meu pai perguntando se minha mãe
queria ter outro filho
E ela disse que não
que dava trabalho
Bem pequeninha que eu era
relacionei essa memória com um sino e uma igreja
Bem pequeninha que eu era
embasbacada
Aquilo ficou na minha cabeça aquele dia
o sino e a igreja
E esse filho que não nasceu
E o sino e a igreja e o sino
E a igreja
Não gostava de ser criança
tampouco gosto de como sou agora
Eu gostava do meu cachorro
e eu falava e ele me olhava e não respondia
Eu gostava de montar e desmontar a árvore de natal mil vezes
nunca deu sorte
E ficava de boca aberta quando o papai noel sumia com os biscoitos
e fiquei triste quando soube que ele nunca havia comido os que sumiam
todos de volta pro pote pro sino e pra igreja
Eu gostava de ficar na janela
não gosto desse hábito agora
Eu gostava de falar sozinha
não parei ainda
E gostava quando tinha alguém que não morava lá em casa
visitando
E quando passava alguma coisa especial na televisão
Quando eles iam, quando o programa acabava
eu ficava vazia de novo
e até hoje
o sino e a igreja
Eu gosto dos nomes dos carros
e de saber que eles sempre significam alguma coisa que eu gosto
E gosto de parar no sinal e ver as casinhas dos pescadores
uma porta na frente e outra atrás
o mesmo mar que agita acima do telhado
passa por dentro
ondinhas
E eu gosto de mim
quando falava com as plantinhas
pedrinhas
E eu, tão pequena que era, tinha medo de tudo
mas não tinha medo do cavalo
meu pai gritou meu nome
estou viva agora
Eu gostava de descobrir pequenas pedrinhas
Folhinhas fossilizadas
gostava de ver os sinais que os macaquinhos deixavam durante a noite
De ver tudo lá de cima
e até hoje
o sino e a igreja
Acho que era poesia
não sei
talvez o sino e a igreja e o sino e o cachorro chorando por causa do sino da igreja
Devia ser poesia
Perdida
Uma vez eu disse pra minha mãe
que todos os sonhos são sonhados duas vezes
E eu me via
sem espelho
eu lembro de mim indo
vendo de fora
fugindo do trovão
Do sino da igreja
E eu
Sempre acordada e sozinha
Achava que ninguém ia vir me cuidar
porque todo mundo gritava e só eu acordava
e quando eu vou dormir, ainda gritam
e quando eu acordo
de vez em quando
gritam também
Não choro mais
Nem a igreja
talvez o sino
da igreja
Pai, o cavalo era meu amigo
e o cachorro falava comigo
E o cometa, né?
era bonito
e caiu
assim
ploft
Talvez nem fosse o cometa
pode ser ser que seja o sino da igreja
a igreja do sino
meteorito
em chamas
caiu
assim ó
ploft
Naquela noite bonita
O cavalo morreu
pobrezinho, ficou na chuva
ficou gripado
e morreu
O cachorro também
ficou doente
e foi embora
eu quis chorar por dias
mas aí me disseram
CALA A BOCA
Aí eu calei
e o sino da igreja
tocou
Era poesia
Eu subia no Corcel
Verde
Enferrujado
E descia
na falta de um escorregador melhor
Depois
eu pulava na lama
olhava pras abelhas
salvava algum ser vivo
colhia umas florzinhas
catava uma pedrinha
Depois
eu me balançava no pneu
depois na rede
depois brincava com o cachorro
com o gato
e ia lá ver quem estava aparando o rabo do cavalo
Colocava o plástico do vinho cabeça
pisava no estrume
passava batom
rosa
Depois, esquecidinha que eu era
esqueci do sino da igreja e da igreja do sino
Esqueci que gostava um pouco de ser criança
esqueci que me esqueceram
mas esqueci que me lembraram
- sai de baixo do cavalo que ele vai te pisar!
Rá rá rá pai, o cavalo era meu amigo
e o cachorro
e a casinha do pescador com as ondinhas bonitinhas e o Corcel
E você
Lembravam de mim de vez em quando
Mas aí eu esquecia
devia ser a poesia