quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Grama molhada

Eu me lembro de uma vez

estranho isso
Eu no corredor sendo
eu
Com minha bermuda de florzinha
eu gostava dela
E meu cobertor que carregava pela casa
aí eu vi
Meu pai perguntando se minha mãe
queria ter outro filho
E ela disse que não
que dava trabalho
Bem pequeninha que eu era
relacionei essa memória com um sino e uma igreja
Bem pequeninha que eu era
embasbacada
Aquilo ficou na minha cabeça aquele dia
o sino e a igreja

E esse filho que não nasceu
E o sino e a igreja e o sino

E a igreja

Não gostava de ser criança
tampouco gosto de como sou agora
Eu gostava do meu cachorro
e eu falava e ele me olhava e não respondia
Eu gostava de montar e desmontar a árvore de natal mil vezes
nunca deu sorte
E ficava de boca aberta quando o papai noel sumia com os biscoitos
e fiquei triste quando soube que ele nunca havia comido os que sumiam
todos de volta pro pote pro sino e pra igreja

Eu gostava de ficar na janela
não gosto desse hábito agora
Eu gostava de falar sozinha
não parei ainda
E gostava quando tinha alguém que não morava lá em casa
visitando
E quando passava alguma coisa especial na televisão
Quando eles iam, quando o programa acabava
eu ficava vazia de novo
e até hoje
o sino e a igreja

Eu gosto dos nomes dos carros
e de saber que eles sempre significam alguma coisa que eu gosto
E gosto de parar no sinal e ver as casinhas dos pescadores
uma porta na frente e outra atrás
o mesmo mar que agita acima do telhado
passa por dentro
ondinhas
E eu gosto de mim
quando falava com as plantinhas
pedrinhas
E eu, tão pequena que era, tinha medo de tudo
mas não tinha medo do cavalo
meu pai gritou meu nome
estou viva agora

Eu gostava de descobrir pequenas pedrinhas
Folhinhas fossilizadas
gostava de ver os sinais que os macaquinhos deixavam durante a noite
De ver tudo lá de cima
e até hoje
o sino e a igreja
Acho que era poesia
não sei
talvez o sino e a igreja e o sino e o cachorro chorando por causa do sino da igreja

Devia ser poesia

Perdida

Uma vez eu disse pra minha mãe
que todos os sonhos são sonhados duas vezes
E eu me via
sem espelho
eu lembro de mim indo
vendo de fora
fugindo do trovão

Do sino da igreja

E eu
Sempre acordada e sozinha
Achava que ninguém ia vir me cuidar
porque todo mundo gritava e só eu acordava
e quando eu vou dormir, ainda gritam
e quando eu acordo
de vez em quando
gritam também

Não choro mais
Nem a igreja
talvez o sino
da igreja

Pai, o cavalo era meu amigo
e o cachorro falava comigo

E o cometa, né?
era bonito
e caiu
assim
ploft

Talvez nem fosse o cometa
pode ser ser que seja o sino da igreja
a igreja do sino
meteorito
em chamas
caiu
assim ó
ploft
Naquela noite bonita

O cavalo morreu
pobrezinho, ficou na chuva
ficou gripado
e morreu

O cachorro também
ficou doente
e foi embora
eu quis chorar por dias
mas aí me disseram
CALA A BOCA

Aí eu calei
e o sino da igreja
tocou

Era poesia
Eu subia no Corcel
Verde
Enferrujado
E descia
na falta de um escorregador melhor
Depois
eu pulava na lama
olhava pras abelhas
salvava algum ser vivo
colhia umas florzinhas
catava uma pedrinha
Depois
eu me balançava no pneu
depois na rede
depois brincava com o cachorro
com o gato
e ia lá ver quem estava aparando o rabo do cavalo
Colocava o plástico do vinho cabeça
pisava no estrume
passava batom
rosa

Depois, esquecidinha que eu era
esqueci do sino da igreja e da igreja do sino
Esqueci que gostava um pouco de ser criança
esqueci que me esqueceram
mas esqueci que me lembraram
- sai de baixo do cavalo que ele vai te pisar!
Rá rá rá pai, o cavalo era meu amigo
e o cachorro
e a casinha do pescador com as ondinhas bonitinhas e o Corcel
E você

Lembravam de mim de vez em quando
Mas aí eu esquecia
devia ser a poesia

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu vi no fundo dos teus olhos a poesia que faltou na ponta dos meus dedos.

domingo, 14 de agosto de 2011

Susto

Ela havia acordado, após uma longa e desconfortável noite mal dormida no sofá.
Seu namorado ainda imóvel, pateticamente dormia, de boca aberta e com a camisa manchada de vinho tinto, vindo da mesma garrafa vazia, deitada no chão.
A cabeça ainda zunia, um pouco confusa com o jantar e os filmes da noite passada, que passavam em sua mente como flashes.
O sol que entrava pelas cortinas abertas, machucava seus olhos e nascia para uma manhã calma e despretensiosa de domingo.
Sentou e encostou-se no sofá, ficando de frente para o namorado. Subitamente se deu conta de que a casa era toda silêncio. Lá fora, o mesmo, era só quebrado pelo latidos, ao longe, de um cachorro desanimado.
Com os olhos já acostumados à luz, ela observava o homem que ali dormia. Depois de um tempo, avaliando-o, lembranças repentinamente voltaram à sua cabeça: o primeiro namorado, a mãe gritando por ter a visto com um garoto, as amigas rindo quando contou sobre as horas que passou flertando com um rapaz, os últimos homens com os quais passou suas horas livres...
Bastante amor para alguém tão jovem.
Olhava, sem ver, o namorado e quando a palavra "amor" perpassou pela sua cabeça deixando um eco no silêncio, percebeu que nunca havia amado.
Por Deus! Como isso era possível? Nunca seu coração disparava ao ver o homem, que agora respirava ruidosamente no sofá, não sentia as pernas bambas, não pensava nele a todo o tempo, não sentia vontade de ficar horas ao telefone desfiando sentimentalismos, e não sentia saudades dois minutos após despedirem-se.
Tampouco sentira isso pelos homens anteriores.
Onde estava todos os sentimentos que enchiam as páginas de romances baratos, que inundavam as cenas do filme que assistira na noite anterior?
E as tantas outras sensações que eram descritas? O amor que mãe sempre alegou que sentia por seu pai e ainda perdurava?
Nunca havia amado. Não amava o homem que ali dormia e estava ao seu lado há tantos meses, não sentia por ele o que era retratado nas novelas. Nunca amaria, não era possível, não fora feita para isso. Estava tudo acabado, as lembranças destruídas e o namoro arruinado.
Ao concluir que foi tudo um engano, ela tremia, o sangue subiu para sua cabeça, o coração pulsava enlouquecido e um choro se formava no peito. Doía.
Então o namorado acordou, sentou-se e a viu ali, fitando-o. coçou os olhos e passou a mão nos cabelos, deixando-os mais bagunçados fizera o sofá.
O sol batia em seu rosto quando ele percebeu que sua camisa estava manchada de roxo. Ele olhou para ela e riu-se de seu desajeito.
Ao vê-lo rindo, com o rosto faiscando no sol, foi como ter uma queda amortecida, acordar de um pesadelo, dormir depois de um dia cansativo, se encantar com a natureza, ter um sonho bom.
Ela inspirou fundo e expirou; com o ar, foi-se embora todo o nervosismo, a dúvida e a tensão.
Já não importava o que a mãe falava, o que leu nos livros e o que via-se no filmes.
Elas sorriu de volta para ele.
Aquilo era amor.

domingo, 8 de maio de 2011

E se tudo ficar bem pra sempre?


A viagem havia terminado, enfim ele chegaria em casa e deitaria na sua cama.

Fazia três meses que morava com sua namorada, e os dias que passou morando com ela antes de viajar, foram dias maravilhosos. Acordava de manhã e a via ao seu lado, com os cabelos espalhados no travesseiro, se arrumava olhando para o corpo nu e completamente relaxado na cama e saía para trabalhar silenciosamente, com os olhos sorrindo. À noite, quando voltava cansado depois de 8 horas de trabalho, entrava em casa e alguma música extremamente boa de alguma banda extremamente desconhecida estava tocando baixinho, vindo de todos os lados tal como a luz, aconchegante e suave que flertava com o escuro pelos cantos da casa, e o cheiro de alguma comida diferente que ela inventava na cozinha.

Quando ela ouvia a porta abrir, corria para os braços dele, e o abraçava forte e lhe dava um beijo adolescente ria no ouvido dele. Depois ela corria para a cozinha gritando que algo estava queimando.

Ele só conseguia sorrir.

Depois, se sentavam na mesa para jantar e riam entre as taças cheirosas de vinho. Ele dizia que a comida estava boa e ela o olhava com as maçãs do rosto rosadas pelo vinho e os olhos desejosos.

Subiam as escadas abraçados e se deitavam na cama. Ali ficavam, sentindo todas as coisas conhecidas que de tão boas, todos os dias pareciam novas. Dormiam abraçados, sentindo o cheiro um do outro.

A rotina o completava. Os sete dias que ficou viajando, lhe mostraram uma saudade de casa como nunca havia sentido. Mas um pensamento se agitava na cabeça dele: e se não for sempre assim? E se um dia a rotina se tornasse cheia de brigas e ressentimentos? E se ela mudasse? E se ele mudasse?

A preocupação de perder a melhor coisa que já havia experimentado se confundia com os sorrisos que o escapavam ao lembrar das piadas tolas que ela contava no jantar e que o faziam rir sem parar.

Ele chegou em casa, abriu a porta e colocou a mala no chão, uma musica tocava, cheia de violão, e um homem cantava coisas felizes com a voz baixa e rouca.

O sol entrava pela janela, dourado, se pondo. Ele a viu no outro lado da sala, sentada na mesa, de costas para a porta, escrevendo em uma folha de papel. Ela não o ouvira chegar. A frente da mesa que ela escrevia, se erguia uma parede cheia de fotos e desenhos.

Ela sussurrava alguns versos da musica quando parava de escrever e ficava olhando a folha. O sol batia no seu cabelo e projetava a sombra do lápis escrevendo no chão. O cachorro dormia ao lado dela, tranquilamente, com o corpo no sol e cabeça na sombra. Em cima do fogo, tinha um torta de maçã.

A cena era tão bonita que ele sentou ao lado da porta e ficou olhando para ela, de costas e inconsciente da presença dele. A música trazia uma atmosfera perfeita para a casa e combinava com os dois.

E se ela mudasse?

Enquanto ele pensava na vida bonita que estava sendo construída ali, naquela casa pequena, ela parou de escrever e ficou olhando as fotos na parede. Bem na frente dela, tinha uma foto dele. Ela ficou olhando e estendeu a mão pra afagar o papel, na face dele.

E ele só conseguia sorrir.