sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Afirmação

Deitamos sob as estrelas, de mãos dadas, rindo, ainda ofegantes por causa da corrida. A grama estava úmida e beliscava a pele do meu braço e das minhas costas onde minha blusa se ergueu. Olhei para o alto, o céu estava limpo e parecia que ali havia mais estrelas que na cidade. Entendi o porquê diziam que era inútil contá-las; eram tantas.

O vento batia na copa das árvores que escondiam a lua ao fundo. Acho que ali conheci a felicidade. Eu estava de mãos dadas com uma pessoa que, enfim, merecia o que eu sentia e que me fazia sentir que, em algum lugar, dentro daqueles olhos azuis e brilhantes como os de uma criança, havia algo de que eu era merecedora.

Ficamos ali deitados, no silêncio. Podia ouvir a respiração dele se normalizando, podia sentir sua mão na minha e a ponta do meu tênis tocando sua perna. Virei minha cabeça a fim de ver sua expressão, se era tão feliz e boba como a minha devia estar. Me surpreendi ao ver que ele me fitava, com os olhos doces e um leve sorriso nos lábios rosados. Sorri de volta.

Ali tive a confirmação que o tal amor era verdade e podia sim, ser mútuo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Cortina

Está entrando luz do sol. Você não gosta de luz. A luz entra por culpa da janela. E você realmente odeia essa luz. Então você passa a odiar a janela. Agora você realmente odeia essa janela que traz essa luz que ofusca tudo e não te deixa descansar. Mas você não odeia o sol, odeia a janela que deixa entrar luz onde não deveria. E cada vez a luz te incomoda mais. E cada vez você odeia mais a janela. Mais. Mais. E o ódio que você tem da janela se torna irracional. Então você quebra a janela. Todinha. Quebra em pedacinhos. Até não sobrar mais nada que se possa olhar e dizer que foi uma janela. A luz continua entrando. (Talvez a culpa não fosse da janela). A luz entra. E continua te irritando. E você sai pra comprar uma cortina. E compra uma. Ela não deixa a luz passar de jeito algum. E você adormece. Esquece do incidente da janela. Mas acorda no meio da noite. Você sente muito frio. E levanta pra fechar a janela. Cadê a janela? Você quebrou. E agora está frio. A cortina não bloqueia o frio. Ele passa, malandro, pelos lados e chega a você. E agora você quer que a luz chegue pra esquentar você.
Pobre da janela.