domingo, 14 de agosto de 2011

Susto

Ela havia acordado, após uma longa e desconfortável noite mal dormida no sofá.
Seu namorado ainda imóvel, pateticamente dormia, de boca aberta e com a camisa manchada de vinho tinto, vindo da mesma garrafa vazia, deitada no chão.
A cabeça ainda zunia, um pouco confusa com o jantar e os filmes da noite passada, que passavam em sua mente como flashes.
O sol que entrava pelas cortinas abertas, machucava seus olhos e nascia para uma manhã calma e despretensiosa de domingo.
Sentou e encostou-se no sofá, ficando de frente para o namorado. Subitamente se deu conta de que a casa era toda silêncio. Lá fora, o mesmo, era só quebrado pelo latidos, ao longe, de um cachorro desanimado.
Com os olhos já acostumados à luz, ela observava o homem que ali dormia. Depois de um tempo, avaliando-o, lembranças repentinamente voltaram à sua cabeça: o primeiro namorado, a mãe gritando por ter a visto com um garoto, as amigas rindo quando contou sobre as horas que passou flertando com um rapaz, os últimos homens com os quais passou suas horas livres...
Bastante amor para alguém tão jovem.
Olhava, sem ver, o namorado e quando a palavra "amor" perpassou pela sua cabeça deixando um eco no silêncio, percebeu que nunca havia amado.
Por Deus! Como isso era possível? Nunca seu coração disparava ao ver o homem, que agora respirava ruidosamente no sofá, não sentia as pernas bambas, não pensava nele a todo o tempo, não sentia vontade de ficar horas ao telefone desfiando sentimentalismos, e não sentia saudades dois minutos após despedirem-se.
Tampouco sentira isso pelos homens anteriores.
Onde estava todos os sentimentos que enchiam as páginas de romances baratos, que inundavam as cenas do filme que assistira na noite anterior?
E as tantas outras sensações que eram descritas? O amor que mãe sempre alegou que sentia por seu pai e ainda perdurava?
Nunca havia amado. Não amava o homem que ali dormia e estava ao seu lado há tantos meses, não sentia por ele o que era retratado nas novelas. Nunca amaria, não era possível, não fora feita para isso. Estava tudo acabado, as lembranças destruídas e o namoro arruinado.
Ao concluir que foi tudo um engano, ela tremia, o sangue subiu para sua cabeça, o coração pulsava enlouquecido e um choro se formava no peito. Doía.
Então o namorado acordou, sentou-se e a viu ali, fitando-o. coçou os olhos e passou a mão nos cabelos, deixando-os mais bagunçados fizera o sofá.
O sol batia em seu rosto quando ele percebeu que sua camisa estava manchada de roxo. Ele olhou para ela e riu-se de seu desajeito.
Ao vê-lo rindo, com o rosto faiscando no sol, foi como ter uma queda amortecida, acordar de um pesadelo, dormir depois de um dia cansativo, se encantar com a natureza, ter um sonho bom.
Ela inspirou fundo e expirou; com o ar, foi-se embora todo o nervosismo, a dúvida e a tensão.
Já não importava o que a mãe falava, o que leu nos livros e o que via-se no filmes.
Elas sorriu de volta para ele.
Aquilo era amor.

2 Kommentarer:

Válvulas

Muito bom!!

Anônimo

Lindo, lindo!

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