sexta-feira, 26 de abril de 2013

Minha alma tem tarja preta também


Sentou-se na mesa da sala. A casa vazia.
Lá fora ela ouvia o som dos carros e saída do colégio. Um sol dourado entrava pela janela, se despedindo.
Abriu a bolsa.
Pegou a sacolinha.
Sacolinha de farmácia.
Pequena.
Tirou a caixinha de dentro.
A caixinha de remédios.
Com a listra preta.
A tarja.
Preta.
A tarja preta.
Descolou o lacre.
Abriu.
Tirou a cartela.
Toma todos os dias na mesma hora depois de comer alguma coisa.
Estranho ver a tarja de verdade. Era coisa de documentário sobre depressivos. Poderiam falar com ela agora. Pedir um depoimento de superação
Como foi sua trajetória junto a depressão?
Ah.
Não sejamos injustos. Foi uma grande companheira.
Tristezinha, melancolia conquistadora.
Não gostou do modelo da cartela.
Começamos mal?
Apertou o plástico e... oi! Fez o comprimido, sendo parido pela lâmina de alumínio.
Penso, quem decide como vai ser a cartela de remédios? Tem algum critério?
Levantou, pesquisou na internet. Não achou.
Talvez um dia, eu pergunte pra alguém.
Estudantes de farmácia?
Chega!
Chega de procrastinar.
Toma.
Pegou uma água.
Um copo cheio, nem ia tomar tudo.
Ia colocar no potinho do cachorro.
Toma
Não consigo!
Toma!
Não consigo!
Toma, porra, tá com medo de quê?
Não sei o que fazer depois que tudo melhorar.
Não sei com o que me preocupar.
Não sei o que vai sumir de dentro de mim, cara, sou apegada ao que sinto, mesmo que seja ruim.
Toma essa merda.
Alô paz, adeus guerra (?)
Guerra não, poxa.
Alô paz, adeus lança-chamas.
NÃO QUERO QUE O LANÇA-CHAMAS SUMA!
Colocou o comprimido na mesa.
Olhou pra ele, redondinho.
Filho de tarja preta.
Eu sempre fui assim, sempre fui estragadinha, cara.
Como é ser normal?
Eu não quero ser normal.
Acho chato.
E se eu começar a querer todas essas merdas que os outros querem?
Eu não quero essas merdas, cara, não quero.
Não quero ser normal assim.
Eu, o redondinho, vou te fazer se sentir melhor, meu amor. Me engole que te faço um afago. Vamos lá.
Colocou na boca.
Seco na língua.
Parecia que a paz sentava e dizia oi.
Como uma daquelas tias que você nunca viu, mas ela trouxe um chocolate.
Ela trouxe um chocolatinho.
Tá, mas e se eu quiser estragar de novo é só para de tomar?
Engole!
Dissolvia e gosto já ficava ruim.
Começou a chorar.
Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar. Não quero mudar.
Engole, filha da puta!
Engoliu.
Parecia que apunhalava aquele amigo, que apesar de sua mãe não gostar dele, o cara era leal poxa.
Você tá traindo seu amigo.
Você traiu seu amigo.
Tá expulsando ele do grupo, cara.
Sacanagem.
Sentiu o comprimido descer.
Respirou.
Ficou com aquele medo.
Fiz uma coisa errada que não dá mais pra mudar.
Parece os sonhos em que se faz uma tatuagem e depois se arrepende.
Mas tatuagem é tatuagem.
Tatuagem é tatuagem.
Imaginou o redondinho se dissolvendo.
Mandando na sua vida.
Decidindo os próximos sorrisos.
Queria decidir eles sozinha.
Agora vou ficar certinha.
Quem sabe
A felicidade
Me
Seduza
E eu me esqueça
Que gostava
De ser triste
Acontece com quem tá vivo.

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