Sabe quando vários novelos de lã se enroscam e fica tão difícil de separá-los que você acaba cortando os fios?
Mãe, eu escrevi umas coisas sobre a vida.
Eu sinto um medo maior do que qualquer outra coisa que já senti, de ficar triste novamente. As rodas da minha bicicleta só giram pela extrema força que faço nos pedais: o passado não quer soltar o freio. Eu tenho medo da vida; medo das pessoas chegarem, voltarem, perguntarem, responderem. Tenho medo que elas partam. Eu tenho medo de partir, tenho medo de esquecer que dia sai o trem e encontrar a estação vazia. Tenho medo de continuar sozinha.
Minha alma é sozinha.
E eu sei do que ela gosta, ela já sorriu antes, por breves e doces dias. Mas ela chora fácil, corta os pulsos freqüentemente e lá vou eu, rumo ao hospital, segurar a mão da pequena nuvem que me implora, com lágrimas nos olhos, para não passar por tudo isso de novo. Minha alma suturada está apática.
Eu já pensei na morte.
Mas logo lembrei da vida e das promessas jogadas ao vento por tantos, de que nenhuma alma termina sozinha.
Mas cansa, cansa passar os dias esperando. Eu que não me apego a coisas descartáveis, que gosto das coisas feitas com intensidade, paixão e simplicidade, eu que não me animo com algumas gotas de álcool e um pouco de música para tremer os rins, só tenho que esperar. Decido que nunca mais na hora de dormir e acordo me perguntando quando.
Ando sonhando demais.
E falando sozinha com meus amigos que não existem. Estou ficando esquisita. Já me perguntam e eu não respondo, tanto por preguiça quanto por medo.
Sempre gostei de conversar.
Agora ando implorando por silêncio, com os olhos abertos pela metade, sem expressão. Na minha cabeça, já não me sinto bem, como em um lugar que você nunca foi, com pessoas que você não conhece.
E sempre odiei a palavra talvez, agora ela reina no meu reino que só chove. Então talvez umas gotas de álcool, uma musica de tremer os rins, uns beijos sem nome com gosto de cigarro, algumas risadas depois de palavras que eram tudo menos piada, dormir até as três da tarde num domingo de sol, sentir a cabeça pulsar de dor, me perguntar por que tem barro nas minhas roupas e de quem é o desenho dos dentes na minha pele faça eu me questionar sobre minha moral e esquecer um pouco de tentar realizar certos sonhos coloridos.
Mas sonhar colorido enquanto o sol nasce dourado é mais gostoso.
Posso repensar no álcool e a música pode ser mais baixa e lenta, posso me perguntar incessantemente que linhas estúpidas são essas, posso falar enquanto desejo silêncio. Eu só quero saber das possibilidades, quero pensar em todas elas e correr pro lugar certo no jogo de ser feliz. Se é difícil, demorado, se não vem pronto ou se vem quebrado, se é placebo ou se é palpável, eu não ligo, faço o que precisar.
Mas é que às vezes cansa tanto e aí eu sinto um medo.
Decidi não cortar mais os nós da lã. Desfazer os nós é preciso.
1 Comment:
Eu refleti.(E achei ótimo também, ótimo.)
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